Estudantes de Montemor-o-Velho promovem Igualdade de Género em Itália

Parlamento Europeu, Defesa do Ambiente e Igualdade de Género deram o mote à penúltima etapa do projeto E.L.I.O.T., acolhida em Tarquinia (Itália), durante a qual Ema Martins, João Munhoz e Ruben Fernandes se destacaram no pódio, apresentando o trabalho “mais reflexivo” de entre os sete países participantes.

Integrado no programa ERASMUS+ e tendo como proposta “desenvolver a literacia e as competências básicas contra o abandono escolar precoce através de aprendizagens transdisciplinares com a utilização do Teatro” e da prática do “role play”, durante os últimos dois anos, o E.L.I.O.T. reuniu sete escolas de diferentes países europeus: Portugal, Reino Unido, Polónia, Hungria, Grécia, Itália e Holanda, contando com a participação de cerca de vinte alunas e alunos, com idades compreendidas entre os 14 e os 15 anos.

Em resposta ao repto “Se eu fosse um membro do Parlamento Europeu”, as escolas pesquisaram sobre o funcionamento daquele órgão legislativo da União Europeia, bem como  refletiram sobre duas temáticas no âmbito dos Direitos Humanos: Defesa do Ambiente  e Igualdade de Género. O resultado, simulando a atividade do Parlamento Europeu, foi apresentado durante a penúltima mobilidade do projeto (termina em Setembro, em Jaslo, Polónia), realizada em Tarquinia, no final de abril.

Portugal ocupou o pódio, com Ema Martins, João Munhoz e Ruben Fernandes, do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho, nas três primeiras classificações da atividade final da jornada. O trabalho apresentado pela comitiva foi “o mais reflexivo” e  os estudantes nacionais  “os que estavam mais habilitados a falar em matéria de Direitos Humanos, Igualdade de Género e sobre o funcionamento do Parlamento Europeu”, explica Cristina Janicas, a professora que acompanhou a expedição.

Reproduzimos o discurso de Ema Martins, 15 anos, apresentado em Tarquinia.*

Discurso sobre a Igualdade de Género

Hoje, venho aqui falar sobre Igualdade de Género.

O que queremos dizer quando falamos de Igualdade de Género?

A noção de género é um conceito social que remete para as diferenças existentes entre homens e mulheres, diferenças essas não de carácter biológico, mas resultantes do processo de socialização. O conceito de género descreve assim o conjunto de qualidades e de comportamentos que as sociedades esperam dos homens e das mulheres, formando a sua identidade social.

A Igualdade entre Mulheres e Homens, ou Igualdade de Género, significa igualdade de direitos e liberdades para a igualdade de oportunidades de participação, reconhecimento e valorização de mulheres e de homens, em todos os domínios da sociedade, político, económico, laboral, pessoal e familiar.

Este é um tema e um problema que afeta, nos dias de hoje, homens e mulheres.

Quando nos perguntam se somos a favor ou contra a Igualdade de Género, muitos afirmam que são a favor, porque é algo que vimos percepcionando como sendo um valor positivo que deveria ser adotado para a construção de uma sociedade justa; um valor o mundo deveria adotar, que nós deveríamos adotar…

Mas na realidade não há uma efetiva Igualdade de Género e, ainda, existem muitas pessoas, não apenas homens mas também mulheres que consideram que os homens e as mulheres são diferentes, desempenham papéis diferentes e que as suas funções são hierarquizáveis, sendo as funções dos homens superiores às das mulheres.

É importante e urgente falar em Igualdade de Género atualmente, porque:

  • A participação dos homens e mulheres no mercado de trabalho é desigual, facto que se reflete na existência do gapsalarial entre homens e mulheres e consequentemente no maior número de situações de pobreza entre a população feminina;
  • Nas empresas privadas e na administração pública, os lugares de chefia são maioritariamente ocupados por homens, pese embora o número de mulheres com habilitações superiores ser superior ao dos homens;
  • Continuam a persistir profissões tendencialmente femininas e tendencialmente masculinas;
  • Continuam a verificar-se diferentes participações e usos do tempo entre homens e mulheres no que diz respeito à vida familiar, sendo que as mulheres são ainda as principais responsáveis pela execução das tarefas domésticas e pela prestação de cuidados à família;
  • Não obstante a licença de maternidade/paternidade, de acordo com a lei, poder ser partilhada pela mãe e pelo pai, são ainda poucos os homens que auferem deste direito, em grande parte devido ao modo como são estigmatizados no seu local de trabalho;
  • Persistem as barreiras psicossociais no que diz respeito ao acesso a cargos políticos e à participação na vida cívica em geral, por parte das mulheres;
  • As mulheres ocupam uma posição desigual no que diz respeito ao trabalho remunerado, nomeadamente no que diz respeito a dificuldades na gestão do tempo, decorrentes das exigências sociais (ainda) impostas nos cuidados prestados à família;
  • Pese embora a legislação em vigor garanta a Igualdade de Oportunidades entre mulheres e homens no mercado de trabalho, na prática ainda se verificam expectativas diferenciadas para mulheres e homens, decorrentes de estereótipos e papéis sociais de género;
  • A crescente participação feminina no mundo laboral é importante não só para o sustento das famílias, mas também para a própria valorização pessoal das mulheres e sobretudo para a economia global;
  • A integração da perspetiva do género desafia as políticas convencionais e a repartição dos recursos e reconhece a forte interligação entre a desvantagem relativa que afeta as mulheres e a vantagem relativa de que gozam os homens.

Nos últimos 100 anos este tem sido o tema de debate e apesar de cada vez existirem mais ações em nome da Igualdade de Género há muito caminho a percorrer pois, ainda, recentemente o presidente da Harvard University fez comentários sobre as mulheres terem menos capacidades para ser cientistas, facto que levantou as discussões e as dúvidas sobre como resolver e acabar com esta discriminação!

O problema é que os preconceitos começam desde que somos crianças e eu própria os tenho! Um exemplo disso é o São Valentim!

Quantos de nos não estamos habituados a ouvir que tem que ser o rapaz a pagar o jantar e não a rapariga?

E quantas vezes viram uma rapariga chegar à escola com um ramo de flores para oferecer ao namorado?

Quantas vezes ouvimos que as profissões de bombeiro, camionista, polícia são trabalho para homens?

Estes preconceitos ou ideias estão cristalizadas na nossa cultura e não podemos esperar que mudem de um dia para o outro…

Se não fizermos nada está estimado que demore mais de 75 anos até que exista Igualdade de Género! Pontanto, vamos tentar acelerar um pouco isto aprovando um programa europeu de educação para a Igualdade de Género. Um programa que denuncie os mitos e as ideias feitas que tem por base a diferença de género e que no limite ensina os rapazes que apenas devem brincar com carrinhos e as meninas com bonecas.

* Discurso enviado pela professora Cristina Janicas